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As leituras de sábado à noite – Onde vivem os Monstros: Pequeno Príncipe Indie.

Como pode um livretinho de pouco mais de 15 páginas ser um sucesso tão grande, vendendo mais de 19 milhões de cópias desde seu lançamento (em 1963) até hoje? A história infantil entrou para o imaginário americano assim como o Pequeno Príncipe para o imaginário francês. A história, simples à primeira vista, revela uma leitura muito mais complexa sobre a juventude, a imaginação e a aceitação.

Maurice Sendak nasceu no Brooklyn, em 1928. É filho de imigrantes judeus-poloneses que fugiram da Europa durante o holocausto. Desde criança mostrou-se apaixonado por desenho e arte, sendo muito influenciado por Walt Disney. Seu primeiro trabalho de destaque foi ilustrando a série de livros Pequeno Urso, de Else Holmelund Minarik:

O sucesso encorajou o autor a criar seus próprios personagens, uma série de monstros incomuns de “grandes garras e dentes”. Nascia assim seu maior sucesso.

O livro conta a história de Max, um menino hiperativo que veste uma fantasia de lobo e sai por aí aprontando traquinagens até ser posto de castigo, sedo chamado de monstro por sua mãe. No seu quarto, Max se imagina transportado para uma terra selvagem cercada de monstros que o coroam o rei de todos eles. Mas a saudade de casa fala mais alto e Max retorna para o seu lar e seu “jantar quentinho”. A história é simples e cativante, assim como as belas e rebuscadas ilustrações que compõem o livro:

O visual estranho dos monstros e o teor de nonsense do livro não agradaram nem os pais, nem os críticos no primeiro momento e os livros foram boicotados nas livrarias e escolas. Somente dois anos após o lançamento, os críticos começaram a perceber a qualidade lúdica do livro. A Time descreveu-o como um livro suave, que mostra o lado amoroso e selvagem dos jovens ao mesmo tempo. Os críticos descreveram-no quase como um estudo freudiano da criança..

O autor trabalhou em outros livros e em óperas (inclusive uma só para crianças, a Brundibar, em 2003) e seu livro foi ganhando mais e mais fama.

Adaptações.

O livro recebeu inúmeras adaptações, como por exemplo esta animação de estreia de John Lasseter (que viria a ser o principal diretor da Pixar, tendo inclusive dirigido os filmes da franquia Toy Story):

Esta animação foi percursora em unir o estilo de animação  2D com o 3D ainda em desenvolvimento.

Uma ópera (o autor é apaixonado por óperas):

E o filme do diretor “doidão” Spike Jonze em 2009:

O filme foi grande responsável pelo revival do livro e sua popularização fora do nicho americano. ainda que não tenha alcançado um grande destaque com as crianças, o livro faz mais sucesso com os adultos.

O filme consegue adaptar o livro de forma primorosa, e se você levar em conta que o livro possui apenas nove sentenças, foi um grande trabalho visual e criativo.

O fenômeno indie.

As gerações que cresceram lendo o livro acabaram dando um status de cult para ele. Se levarmos em conta que a geração de hoje possui uma adolescência tardia e o livro trata justamente da selvageria criativa que as crianças possuem e que buscam fugir dos padrões estabelecidos, cenas como essas fazem sentido:

Assim como apropriações da cultura pop:

Essa relação do cult com o livro já é conhecida e satirizada:

Mas só existe para reafirmar o papel de “formador de personalidade” da obra.

 

Por que ler Onde Vivem os Monstros num sábado à noite?

Cara, depois de tudo isso, e sabendo que ele só tem 9 (NOVE) frases, você acha que será uma leitura ruim? Desista do mundo literário!

 

Gustota agradece aos céus por não ver hipsters vestidos de Pequenos Príncipes ou de personagens do Sítio do pica-pau Amarelo pelas ruas de Belo horizonte!

As leituras de sábado à noite – Precisamos falar sobre o Charlie Brown.

Calma, calma. Não falaremos sobre o homônimo santista do nosso jovem Minduim. Com seus oito anos e meio e seus quilos de melancolia juvenil, Charlie Brown marcou pelo menos três gerações seguidas com sua profundidade existencial para situações cotidianas típicas da infância.

O lado outsider de Charlie Brown provavelmente surgiu do íntimo de seu criador, Charles Schulz. Nascido de uma família de imigrantes alemães e noruegueses, Schulz era o mais jovem aluno de sua escola, na cidade de Saint Paul. Talvez por ser o mais jovem, sempre foi um menino tímido e introvertido. Lutou na Segunda Guerra e, ao retornar dela, instalou-se como professor de arte em 1947 na sua cidade. E foi nesta mesma época que ele publicou suas primeiras tirinhas, as Li’l Folks em um jornal local.

Assinando com o pseudônimo de Sparky e com forte influência das tirinhas da época, Schulz delineava o que viria a ser seu maior sucesso.

Dizem que nossos cães adquirem nossa personalidade com o passar dos anos. Talvez a personalidade Schulz tenha sido adquirida tanto pelo seu beagle Snoopy quanto pelo jovem  e calvo Charlie Brown. Snoopy e Charlie Brown surgiram na Li’l Folks e começaram a ganhar vida e personalidade próprias. Minduim foi deixando de ser o menino certinho para se tornar o melancólico (e pré-hipster) garoto enfadonho. Snoopy deixou a inocência para ganhar um viés anárquico e hiperativo.

Disso:

Para isso:

Em 1950 tivemos a primeira tirinha com o nome Peanuts:

A mudança de Li’l Folks para Peanuts aconteceu por questões de direitos autorais (já existia uma tirinha com esse nome). O nome Peanuts provém de um tipo de platéia que ri das piadas dos comediantes  em apresentações de Vaudeville (e que permanecem até hoje nos sitcoms). Elas chão chamadas assim pelo fato de receberem aqueles amendoins característicos em pacotinhos nos estilo dos de pipoca (e muitas vezes a platéia jogava esses amendoins nos comediantes ruins). O nome foi inspirado diretamente de uma platéia Peanuts de crianças. Schulz sempre detestou o nome escolhido contra sua vontade. ele achava que o nome burlesco diminuía o valor de seu trabalho.

A tirinha alcançou sucesso imenso durante os anos 50 e 60 porque tratava da comédia  em duas camadas. Tanto as crianças poderiam amar as brincadeiras de Snoopy quanto os adultos podiam se identificar com os dramas pessoais de Charlie Brown. O famoso especial de natal de 1965 foi o grande responsável pelo sucesso em massa nos Estados Unidos e no resto do mundo:

Quanto de Schulz havia em Charlie Brown?

Muito da vida de Charlie Brown veio da vida pessoal do autor. Os pais de Charlie Brown serem um barbeiro e uma dona-de-casa, como os pais de Schulz. A ‘Menininha ruiva” realmente existiu:

Ela se chamava Donna Wold, foi amor platônico e posteriormente namorada de Schulz por três anos. Ela recusou um pedido de casamento do autor, e este nunca aceitou a rejeição.

Lucy Van Pelt, a eterna “bully” do Charlie Brown possui muito do comportamento autoritário de sua mulher, Joyce Schulz.

Uma das passagens mais famosas de Lucy, a barraca de consultas psiquiátricas teve inspiração em uma discussão do casal, onde Joyce teria mandado Schulz “procurar um psiquiatra”.

Linus seria o lado religioso e filosófico de Schulz, que era luterano:

Patty Pimentinha era inspirada em Patricia Swanson, uma prima de Schulz que se dava melhor entre os meninos.

Charlie Brown fez imenso sucesso até os anos 80, onde perdeu um pouco de espaço para outros sucessos como Garfield e Calvin, mas ainda é considerado até hoje como a tirinha de maior sucesso de todos os tempos. Schulz faleceu em 2000, vítima de ataque cardíaco e até antes de sua morte continuou fazendo suas tirinhas.

Tirinha póstuma publicada em 13 de fevereiro de 2000, um dia após a morte do autor.

Em 2006 tivemos o último longa de animação do Peanuts, He’s A bully Charlie Brown:

Porque ler Charlie Brown num sábado à noite?

Porque não existe nada melhor para chorar a solidão de um sábado em casa que Charlie Brown:

Só que não esse.

As tirinhas de Charlie Brown foram publicadas no Brasil pela LP&M, famosas pelos seus livros “pocket”:

E eles deram um tratamento excelente às tirinhas clássicas. Vale muito a pena conferir:

Como já disse certa feita Umberto Eco (outro que já apareceu em nossa sessão de livros) sobre Charlie Brown e sua turma:

“O mundo de Peanuts é um microcosmo, uma pequena comédia humana, tanto para o leitor inocente como para o sofisticado.”

 

Vale lembrar também um post anterior sobre o Charlie na puberdade feito aqui no Blog.

E boa noite a todos, e a você também, Charlie Brown!

Gustota quer ver os caras do Charlie Brown invadirem a cidade.

 

As leituras de sábado à noite – Arzach: Como ler um clássico dos quadrinhos sem nenhuma palavra?

Como falar de uma história em quadrinhos que não possui um único diálogo? E como pode um quadrinho assim ser considerado um dos mais revolucionários da história? Simples, estamos falando de Jean Giraud, um designer e cartunista francês extremamente famoso em seu país de origem e nas rodas dos adoradores de quadrinhos. Juntamente com nomes como Milo Manara, Enki Bilal e Paolo Serpieri revolucionaram os quadrinhos europeus de fantasia.

Estes nomes geniais lançaram suas obras notórias de ficção científica e fantasia na obra Métal Hurlant (no Brasil, a Heavy Metal magazine). A obra atraiu nomes geniais como os dos desenhistas já citados e do escritor Alejandro Jodorowsky, que criou juntamente com Moebius a extraordinária Incal:

Heavy Metal renovou a linguagem da ficção científica e dos quadrinhos em geral. Muito do que vemos em quadrinhos da Vertigo, em mangás de ficção científica e em filmes como o 5° elemento são derivadas desta obra. Arzach foi publicado em capítulos na revista até ser compilado neste volume em 1981.  A obra mostra um guerreiro/andarilho solitário que viaja um num mundo alienígena de fantasia a bordo de seu pterodáctilo de aspecto rochoso.

Arzach é uma ficção onírica para se ler com imagens. O personagens serve como os nossos olhos por um mundo confuso e delirante em que você não pode se ater a um detalhe. É um livro de arte que dialoga com a história cinematográfica do autor. Arzach  varia entre o realismo e o Art Noveau com cores bem vivas e influência da arte surrealista.

Arzach tem algumas adaptações inéditas  no brasil em animação:

A série de games Panzer Dragoon de Sega Saturn é baseada em Arzach (Moebius inclusive colaborou com o jogo):

 Por que ler (ver) Arzach em um sábado à noite?

Porque o Coletivo Senshi irá dar ele para você! Estaremos sorteando o álbum de luxo Arzach nesta segunda-feira! Não deixe de participar do nosso sorteio para esta sensacional obra de arte em quadrinhos!

Gustota imagina como deve ser difícil cuidar de um pterodáctilo de pedra. 

Leituras de Sábado à Noite – Artemis Fowl

“AFASTE-SE, HUMANO.

Você não sabe com o que está lidando.”

Hoje o Leituras de Sábado a Noite não será dedicado a apenas um livro, será dedicado a uma das melhores séries que eu já li, Artemis Fowl é surpreendente, tem ação, emoção, dilemas éticos, alta tecnologia, duendes, fadas, magia e um anti-herói fascinante. O autor é Eoin Colfer  nascido e criado na Irlanda e desde cedo despertou para a literatura, ja na juventude criava peças teatrais a serem encenadas no colégio. Artemis Fowl foi lançado em 2001 e virou best seller mundial, ganhando prêmios como WHSmith de Livro Infanto-juvenil do Ano na “Escolha Popular” e o de Livro Infanto-juvenil do Ano do British Books Awards. No Brasil a história chegou em 2006 e ficou por várias semanas entre os mais vendidos.

Tudo começa no primeiro volume da série, O menino prodígio do crime. 

 “A história começa há vários anos, no início do século XXI. Artemis Fowl tinha imaginado um plano para recuperar a fortuna de sua família. Um plano que poderia derrubar civilizações e mergulhar o planeta numa guerra entre espécies..  

Ele tinha doze anos naquela época… “

A Família Fowl é irlandesa, uma das maiores e mais tradicionais famílias criminosas da Europa, são donos de uma gigantesca fortuna oriunda das mais diversas atividades ilegais. Artemis I, pai do protagonista, arrisca sua vida por conta da ganância, da sede pelo poder e acaba nas garras da Máfia Russa. Artemis pai desaparece deixando a família com um enorme rombo financeiro, claro que não ficaram pobres, sequer poderiam ser considerados falidos mas perderam o status de bilionários e saíram com o orgulho ferido e a reputação arruinada. Calma querido leitor, não é spoiler, a história de Artemis  Fowl II começa justamente após o acontecido. Diante do desaparecimento do pai e da perda de dinheiro e prestígio de sua família Artemis bola um plano para recuperar a honra e, claro, a fortuna dos Fowl fazendo nada menos que roubando o ouro das fadas. Lembram-se daquela história de que todo duende possui um pote de ouro? É por aí. O que parece uma ideia simples transforma-se em uma caçada eletrizante, perseguições, espionagem, jogos de inteligência, chantagem, subornos, viagens pelo submundo humano e pelo submundo da magia. Sim, pois os seres mágicos aqui não são lembram em nada os contos tradicionais, nada de fadinhas coloridas espalhando pó de pirlimpimpim, aqui as fadas estão armadas e perigosas.

Butler é o guarda-costas  de Artemis desde que ele nasceu, é responsável pela proteção do pequeno príncipe do mundo do crime. Ele vem de uma linhagem de defensores que se dedica a proteção dos fowl ha muitas gerações, aos dez anos, os filhos dos Butler são mandados para um centro de treinamento particular em Israel, onde ganham as habilidades necessárias para proteger os últimos das linhagem dos Fowl.  Dentre as habilidades estão informática avançada, cozinha de classe internacional, mil artes marciais, medicina de emergência, química, história, arte, diversos idiomas e, claro, assassinato. Butl
er pode matar uma pessoa sem o uso de armas de 15 formas diferentes. De longe. 

Capitã Holly Short é a primeira fêmea na LEPrecon, a polícia das fadas. Tem um humor ácido e uma tendência a se meter em confusão, quase não consegue seguir as regras rígidas da polícia e é constantemente repreendida pelo seu comandante, Julius Raiz. Holly está diretamente ligada ao plano de Artemis e por isso acaba sendo, depois de Butler, a personagem  mais próxima do protagonista. Ela é forte, decidida e passa muito tempo tentando conhecer Artemis, com esperanças de tirar um pouco de humanidade de debaixo do menino prodígio.

Potrus O Centauro, um dos meus preferidos, é absurdamente inteligente, humor e cinismo são marcas fortes, quase um Dr. House do Povo. É o responsável pelos maiores avanços tecnológicos do mundo das fadas, sem ele a tecnologia das fadas seria quase humana, é o fodão, logo no início do livro nos brinda com a seguinte citação:

“Confiança é ignorância. Se você está se sentindo confiante, é porque há alguma coisa que não sabe.” 

A série é rica de  personagens intrigantes, poderia listar vários mas quero deixas vocês curiosos, por isso eu vou parar e ir direto ao

melhor de todos.

Artemis Fowl II. Gênio, cínico, egocêntrico, inescrupuloso, pessimista, mal humorado, frio, calculista, dono do maior QI da Europa,
Artemis Fowl é uma série rica, divertida, envolvente, inteligente, mostra o mundo da magia de uma forma única com uma trama cheia de reviravoltas e finais imprevisíveis.  Atualmente está no sétimo livro, Eoin Colfer anunciou o último livro da saga para o ano que vem.12 anos. O menino prodígio do crime. Artemis nos surpreende com tamanha maturidade e talento para o mal, é um protagonista que não tem nada de mocinho, nos desafia com sua mente brilhante e enorme determinação. Ao contrário de outros jovens notáveis, como por exemplo Harry Potter, Artemis não é ‘o escolhido’, não tem um destino a cumprir, não possui uma grande missão que o faz seguir. O que ele tem é um plano e não vai medir esforços, ele sabe que não será fácil então estuda, pesquisa, procura contatos, viaja, não tem medo do que tem que enfrentar, simplesmente foca no objetivo e vai. Ao longo da série Artemis vai envelhecendo de modo que se torna cada vez mais complexo, aquele garoto que começa a história sem se abalar por conflitos morais e sentimentalismo cresce, e esse crescimento faz com que o leitor se depare com o dilema: existe espaço para bondade em Artemis Fowl? Será possível que o pequeno príncipe do crime tenha um coração?

Os livros da série são:

  • Artemis Fowl: O Menino Prodigio do Crime
  • Artemis Fowl: Uma Aventura no Ártico
  • Artemis Fowl: O Código Eterno
  • Artemis Fowl: A Vingança de Opala
  • Artemis Fowl: A Colônia Perdida
  • Artemis Fowl: O Paradoxo do tempo
  • Artemis Fowl: O Complexo de Atlântida
  • Artemis Fowl: O último guardião  (Previsto para 2013)

Novas Capas

Existe, ainda, o Arquivo Artemis Fowl que narra acontecimentos ocorridos entre o primeiro e segundo livros, sob a ótica da LEP, polícia das fadas. Fora duas graphic novels, versões oficiais em quadrinhos dos primeiros livros da série. Digo oficiais porque é fácil encontrar versões feitas por fãs.

Além disso tem um filme sendo produzido sobre a série. Acontece que esse filme ta previsto desde 2005 e numa enrolação que só a ponto de vários atores serem cogitados para o papel principal e descartados por ficarem velhos demais, roteiros já foram propostos, falaram sobre venda de direitos autorais pra Warner, muitas e muitas especulações mas nada de concreto até agora.

Porque ler Artemis Fowl em um sábado à noite?

Pra completar da história, os livros te brindam com códigos super legais que estão nos rodapés de todas as páginas e ao longo dos livros são dadas dicas para a leitura e tradução dos símbolos. Cada livro possui um código e uma mensagem diferente pro leitor tentar decifrar. Um excelente passatempo para um sábado a noite.

As Leituras de sábado à noite: Pêndulo de Foucault, o Código Da Vinci para eruditos.

O Código Da Vinci de Dan Brown fez um sucesso estrondoso nas livrarias e nos cinemas, criando uma série de cópias que vieram em sequência explorando os mesmos filões. Basicamente o livro pode ser definido como “suspense histórico-artístico” , onde o autor faz uma releitura de obras de arte, monumentos, e sociedades do passado de modo a guiar sua história. Código Da Vinci na verdade parece mais um roteiro de cinema de tão mastigado que é, e também não foi o primeiro livro a explorar esse filão e nem teve a mesma qualidade do seu antecessor.

o antecessor, no caso, é O Pêndulo de Foucault de Umberto Eco. Um livro que não fez tanto sucesso quanto o  Best-Seller do mesmo autor, O Nome da Rosa, mas eu pessoalmente considero o livro mais instigante do autor. Ele não explora gratuitamente  nada, nenhuma informação é entregue de bandeja, nada nem ninguém é o que parece ser, o clima muda do humor estudantil para o suspense terrorista em poucas páginas.

Foi então que vi o Pêndulo…

A obra faz ligação direta com a cabala, os capítulos são divididos entre as sephirots e a história segue o chamado caminho da iluminação do cabalista. O protagonista e narrador em primeira pessoa é Casaubon, um acadêmico italiano de vida mansa. Ele divide seu tempo entre namorar uma brasileira (a baiana Amparo), escrever sua tese de mestrado sobre os templários e visitar o Pílades, boteco favorito dos estudantes e dos intelectuais de esquerda. Lá ele conhece a dupla de editores Jacobo Belbo e Diotallevi. Os dois trabalham na editora Garamond, nos arredores do bar. A editora trabalha com manuscritos acadêmicos e a grande diversão da dupla é perverter o sentido das teses que eles recebem,  de maneira absurda e irônica. Casaubon logo se une aos dois para trabalhar sua tese com base nos manuscritos da editora e participar da brincadeira. A vida dos três muda totalmente quando um militar aposentado, o Coronel Ardenti, apresenta um manuscrito codificado à editora que sugeriria um tesouro secreto dos templários, talvez o Santo Graal. Ardenti seria tomado por um velho demente, não tivesse desaparecido misteriosamente no outro dia, logo após entregar o manuscrito.

Será mentira? Será verdade? Não importa, para Belbo Casaubon e Dotallevi tudo é motivo de piada. Ainda mais quando a Gramond lança um selo de livros ocultistas, o Ísis Revelada. A partir daí tudo vira motivo de piada, e tudo tem a ver com os templários. Os excêntricos autores de livros ocultistas, chamados de “diabólicos” pelo trio criam teses que inevitavelmente se relacionam com o plano original dos templários do coronel. Tudo vai bem até a aparição cada vez mais constante de Agliê, que adora insinuar que é o Conde de Saint-Germain. E se um sujeito como esse resolve pegar seu plano feito de brincadeira e realmente acha que tem um tesouro dos templários escondido, e que você tem o mapa? Qual o limite entre a brincadeira e o fanatismo? Estes são os principais questionamentos da obra de Eco.

As Referências, os nomes e a veia pop de Umberto Eco.

Nas obras de Umberto Eco, autores e personagens famosos são misturados, insinuados e dissimulados em seus próprios personagens. assim como no Nome da Rosa, temos referências a outras obras e autores aqui. O personagem Casaubon é uma referência direta ao personagem Edward Casaubon da novela MiddleMarch que pretende reinventar o mundo à sua maneira, assim como o Casaubon de Eco.

O personagem Diottalevi e sua obsessão com a Cabala remetem de certa forma à Eliphas Levi, famoso ocultista do século XIX:

Agliê é o nome de um reino e também um dos vários nomes do mítico Conde de Saint Germain, figura proeminente nos século XVII e XVIII que se dizia um alquimista imortal possuidor da pedra filosofal e do elixir da longa vida. Relatos narram aparições dele até mesmo nos séculos XIX e XX, com a Sociedade Teosófica de Madame Blavatsky.

Madame Blavatsky aliás é constantemente citada na obra, desde o nome do selo ocultista da editora (Ísis Revelada é nome de um famoso livro seu), até na personagem Madame Olcott. Esta mística russa fundou juntamente com o Coronel Olcott a Sociedade teosófica na Inglaterra, por onde já passaram no decorrer dos anos, indivíduos do porte de Krishnamurti, fernando pessoa, Aleyster Crowley e o poeta Yeats:

Porém o personagem mais fascinante do livro na minha opinião é Jacopo Belbo. Ele é o próprio Umberto Eco, talvez um Umberto Eco que não deu certo: um aspirante a escritor que trabalha na Garamond e sabe que é subestimado tanto por seu patrão quanto por sua namorada Lia. Suas reminiscências de infância intercalando o livro em files de computador fazem um contraponto entre o mundo bucólico do interior da Itália e o agitado centro intelectual que é a capital onde a história transcorre. Suas histórias não-publicadas, onde reinventa a monarquia da Inglaterra e a vida de Shakespeare também dão um charme a mais na obra. Sua expressão “destapa o rabo” para incitar o interlocutor a ter humildade cabe para todos os personagens da obra, diabólicos ou não. Uberto Eco usa o pragmático Belbo para esculachar com as mais diversas teorias da conspiração.

E eu nem falei ainda da visita de Casaubon à Bahia (nunca vi tão bem feita descrição do país numa obra literária contemporânea, com direito a citação de Jorge Amado), nas referências à cultura pop, desde o videogame Frogger até Tome Jerry e Pato Donald até o rock’n Roll e as reinvenções de monumentos em locais de mistério, típica dos romances de hoje, como o próprio pêndulo do título, inventado pelo físico Jean Bernard León Foucault e localizado no Panthéon de Paris:

Porque ler pêndulo de Foucault num sábado à noite?

Se você leu, e gostou do Código Da Vinci, vou transcrever aqui o que o Quentin Tarantino do mundo semiótico, Umberto Eco falou sobre ele:

Eu inventei Dan Brown. Ele é um dos personagens grotescos do meu romance que levam a sério um monte de material estúpido sobre ocultismo. O Pêndulo de Foucault projeto brinca com teorias conspiratórias e teve início com uma pesquisa entre 1.500 livros de ocultismo reunidos por seu autor. Ele [Dan Brown] usou grande parte do material.”

Em ‘O Pêndulo de Foucault’, eu havia inserido um bom número de ingredientes esotéricos, que podem ser encontrados no Código Da Vinci. Os meus personagens, ao elaborarem os seus projetos, levam em conta a importância do Graal, por exemplo. Eu quis fazer uma representação grotesca daquilo que eu via em volta de mim, de uma tendência da qual eu previa o crescimento. Era fácil fazer uma profecia como esta. Ao pesquisar para escrever ‘O Pêndulo de Foucault’, eu esvaziei todas as livrarias que já se especializavam nessa “gororoba cultural”. Dan Brown copia livros que podiam ser encontrados trinta anos atrás nos sebos da Rue de la Huchette, em Paris. O sucesso pode ser explicado pelo fato de que os autores desses best-sellers levam tudo isso a sério, e ainda pelo fato de que as pessoas são sedentas por mistérios. Em ‘O Pêndulo de Foucault’, eu cito a frase de G.K. Chesterton:

“Quando os homens não acreditam mais em Deus, isso não se deve ao fato de eles não acreditarem em mais nada, e sim ao fato de eles acreditarem em tudo”.

E é só por isso que você tem que ler o Pêndulo de Foucault.

Gustota lê este livro ao menos uma vez por ano. 

As leituras de sábado à noite: O Pequeno livro dos Beatles reconta a melhor era do rock em quadrinhos.

Fale sobre Beatles e o fã de rock logo saca a sua carteira, mas não se preocupe que essa obra não é caça-níquel. O Pequeno livro dos Beatles, se não é a mais completa, é a mais saborosa biografia do fab 4.  O quadrinista francês Hervé Bourhis decidiu por fazer uma biografia completa narrada em caricaturas de fotos originais e  de capas de álbuns. Temos então nesse livro uma fotonovela desenhada  que cobre desde a pequena Liverpool em 1940 até as carreiras solo dos integrantes remanescentes em 2009.

O charme do livro começa pelo formato: quadradinho igual um disco de vinil, material do qual é feita a contracapa. O quadrinho reveza um preto-e-branco tradicional com um colorido belíssimo, extremamente fiel às capas originais. Como foi dito, não espere uma história em quadrinhos linear, mas um apanhado de pequenas anedotas, dados biográficos e inúmeras curiosidades da saga dos quatro músicos. Não só isso, a obra mostra também a trajetória (ano após ano) de outros músicos, de personagens da vida dos Beatles como o empresário Brian Epstein, o pai de John Lennon e o eterno “cara mais azarado do mundo” Pete Best que abandonou o cargo de baterista dos beatles, passando a vaga pro Ringo Starr. Os filmes, livros e documentários a respeito dos Beatles são apresentados assim como as suas influências e preferências musicais.

Todas as curiosidades dos Beatles são exploradas nesse livro, desde a morte do Paul, as músicas ao contrário, os bastidores de gravações e de shows, as polêmicas com Yoko Ono, com a Apple e os conflitos internos. Outro detalhe que me chamou a atenção foi certa antipatia do autor com os arqui-rivais dos quatro de Liverpool, os meus adorados Rolling Stones. Eu me pergunto se o autor desgosta dos músicos ou só está alimentando polêmica, afinal esse é um livro dos Beatles. Entre as várias alfinetadas uma em especial com esse álbum (e sua estranha capa), o Their Satanic Majesties Request:

As críticas aos álbuns são sensacionais, como a do Sgt. Peppers, em que ele não diz absolutamente nada com nada, afinal tudo já foi dito sobre esse álbum, a desmistificação do Álbum Branco e os elogios rasgados ao Rubber Soul. As comparações também são muito interessantes, como por exemplo essa música da carreira solo do Ringo:

E a Take me out, do Franz Ferdinand:

No geral, O Pequeno livro dos Beatles é uma obra de quadrinhos jornalística sensacional, um livro para se ler em um dia e guardar, caçar todos os álbuns apontados (se já não os tiver) as homenagens, os álbuns satíricos…enfim, uma peça de coleção para obrigatória para beatlemaníacos e fascinante para quem gosta de boa música.

Porque ler Beatles num sábado à noite?

Depois de tudo você ainda está na dúvida se vai ler um livro com a biografia dos Beatles? A banda que criou quase tudo do que se tem notícia, o videoclipe, os álbuns conceituais, a popularização dos gurus… Tudo bem! Não precisa se dar ao trabalho de comprar o livro pois saiba que o Coletivo Senshi está sorteando esse livro na mossa promoção de 10.000 views! Posso dizer por experiência pessoal que não era tão fã assim dos Beatles, sempre preferi os Stones. Mas o livro me fez entender a importância do fab4 para a formação da identidade cultural dos jovens desde os anos 60 até os dias de hoje. Posso realmente afirmar que os Beatles foram os músicos de rock mais importantes que já existiram e a Beatlemania de nada é exagerada. Não há como não simpatizar com o amadurecimento dos músicos nem como não odiar o Mark Chapman pelos tiros em John Lennon. Não há como não se solidarizar com os Beatles em momentos de dificuldade, como na morte de Linda Mccartney ou com câncer de George. E não há como não cantar I wanna hold your Hand, Ticket to Ride, Help! e Yellow Submarine durante a leitura.

Para finalizar, deixo aqui aquele que talvez seja o primeiro videoclipe da história, o maravilhoso Strawberry Fields  Forever:

E uma música solo do meu Beatle favorito:


Aaaaalllellluiiiiaaaa!!! Harrrrreeeeeee Krishhhhnnnaaaaa!!!!

As leituras de sábado à noite: Fim da Infância, o livro favorito de toda banda de rock

Uma boa história não tem idade, como prova essa ficção científica de 1953. O Fim da Infância parece um conto longo. Seu autor é Arthur C. Clarke, a mente por trás de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Não fosse o filme de Stanley Kubrick, esse livro seria seu maior sucesso. Ele trata de questões científicas, filosóficas, políticas e surpreendentemente até espirituais.

Em um futuro próximo (para a época), durante  a Guerra Fria, a Terra é invadida por gigantescas naves alienígenas, mas a invasão é pacífica. Os alienígenas se apresentam como ‘Overlords” (suseranos, na tradução em português) e forçam uma paz entre as nações. O “supervisor da humanidade” é Karellen. Ele nunca aparece pessoalmente, sempre falando por um sistema de auto-falantes de sua nave sobre o céus.  Karellen revela para o general inglês Rikki Stormgren que os Overlords irão se revelar em pessoa depois de 50 anos, quando a humanidade for pacífica e já estiver acostumada com a presença deles.

Essa era chega, finalmente. A humanidade sem guerras atinge seu auge em desenvolvimento e criatividade. Os Overlords se revelam, e para a surpresa de todos  eles se assemelham à imagem folclórica que temos dos demônios:

Os Overlords parecem muito mais interessados no desenvolvimento psíquico dos jovens que na tecnologia humana. A cultura entra em estagnação, começa uma série de desastres naturais e o propósito real dos Overlords para a humanidade é revelado, assim como para quem eles realmente servem.

A obra foi uma adaptação de outro conto do autor, Anjo da Guarda, e foi o primeiro grande sucesso de Clarke, vendendo mais de 200.000 cópias em menos de dois meses. O Diretor Kubrick queria adaptar esse livro, mas acabou adaptando “A sentinela”, outro conto de Clarke. O livro foi sucesso de público e crítica literária, mas não foi muito bem visto por colegas da ficção científica, pois o consideraram muito “raso” por trabalhar muito mais com um “quê”espiritualidade do que com a ciência.

Por que ler O Fim da Infância num sábado à noite?

O livro por si só é um conto empolgante e maravilhoso, mas eu prefiro mencionar aqui todos que ele influenciou culturalmente:

comecemos com Pink Floyd que homenageou-o com uma música:

O Iron Maiden homenageou-o com uma música também:

O Kiss também:

O Genesis homenageou com a música “Watcher in the skies” (o início da música simula um toque musical que iniciava os pronunciamentos do Karellen em sua nave):

O Marillion:

Inúmeras animações japonesas e games fizeram alguma referência ao livro, Entre elas Evangelion, Gurren laggan, Battle Angel Alita, RahXephon e Akira fazem referências diretas ou indiretas à obra. Em Xenogears, o personagem Krelian é uma referência direta à Karellen:

Ele inspirou um episódio de Star Trek, um de Babylon 5 e um de Stargate Atlantis.

O livro inspirou também uma das melhores capas de todos os tempos: O Houses of Holy do Led Zeppelin, que aliás é um spoiler do final.

Bom, se esse livro inspirou tanta gente boa assim, acho que vale a pena dar uma lida, não é mesmo?

Gustota não citou nem 1/4 das referências desse, que foi o primeiro livro de Ficção cientifica que ele leu na vida.

As leituras de sábado à noite – Sandman: The Dream Hunters, um conto de fadas para adultos.

 

Sandman: The Dream Hunters é uma obra de arte dentro de outra obra de arte. Neil Gaiman encontrou a fama no mundo dos quadrinhos no final dos anos 80 juntamente com Alan Moore, quando a DC Comics sugeriu que eles revivessem antigos personagens menores e esquecidos como o Sandman, o Monstro do Pântano e a Orquídea Negra. A nova roupagem que os autores deram aos personagens transformou completamente o mundo dos quadrinhos, criando inclusive um selo próprio da DC comics, o Vertigo. As histórias seriam elevadas a um nível literário e a série Sandman ganharia prêmios que antes eram reservados apenas à literatura (Fantasy World Award em 1991 pela edição Sandman: Sonhos de uma noite de verão).

 

O sucesso de série em quadrinhos abriu várias portas Neil Gaiman. Ele foi convidado pela Miramax para adaptar o roteiro de Princesa Mononoke para a versão americana. Durante as pesquisas para o filme, Gaiman também foi convidado a criar uma história para um álbum comemorativo de dez anos de Sandman.  Imerso nas pesquisas sobre lendas japonesas, ele sugere uma adaptação  de um conto que havia lido: “A Raposa, o monge e o mikado dos sonhos” para o mundo de Sandman.

Para ilustrar o livro, a DC convidou o artista Yoshitaka Amano, famoso por ter trabalhado como designer de personagens na série Final Fantasy, ilustrador da série  cult de livros Vampire hunter D e desenhista do memorável Tatsunoko Studios. Amano topou, mas com a condição de que fosse um livro ilustrado, e não uma série em quadrinhos. Assim surgiria aquela que é, na minha opinião, a maior obra já criada por Gaiman envolvendo o personagem Sandman.

O livro impressiona pela leveza. É uma história pesada de amor não-correspondido, morte e vingança, mas a narrativa é tão suave quanto uma fábula infantil,  uma história cheia de malícia contada para um inocente.  Num tempo, descrito no livro como: “Naqueles tempos havia muita coisa caminhando sobre a Terra. Coisas que hoje raramente vemos. Havia fantasmas e demônios, e espíritos de todos os tipos. Havia deuses feras e pequenos e grandes deuses. Todo tipo de entidades, seres, espectros e criaturas, tanto boas quanto más.” Nesse mundo, animais eram tanto animais como também eram entidades dotadas de poderes mágicos.

Dois desses seres, uma raposa (kitsune) e um texugo (tanuki) disputam um templo onde vive um monge solitário. Eles usam de todas as artimanhas mágicas que possuem, mas são derrotados pela paz de espírito e ausência de medo do monge. No entanto, a raposa se apaixona pelo monge e descobre que este está marcado para morrer, devido às tramóias de um feiticeiro (omyoji) que pretende roubar para si a paz de espírito do monge. O amor da raposa e posteriormente o do monge movem uma busca até o reino dos sonhos, onde somos apresentados, enfim, a Sandman, numa de suas mais arrojadas versões, auxiliando os dois amantes em sua busca apaixonada para ficarem juntos.

 

A obra talvez não tivesse metade do impacto se não fosse acompanhada das magníficas ilustrações de Yoshitaka Amano. O artista consegue combinar o Ukyo-e, a arte japonesa tradicional com o Art Noveau europeu a estilo de Gustav Klimt e Mucha. Não há como não se sentir no mundo dos sonhos com as ilustrações, especialmente as do monge pelo reino de Sandman. E são tantas ilustrações que, além do livro do Sandman, fica impressão de ter-se adquirido também um livro de arte.

Porque ler esse livro num sábado à noite?

Quando li a obra pela primeira vez, apesar de estar lendo uma obra cheia de temas adultos, fiquei com aquela mesma sensação de frescor que tive quando li O Pequeno Príncipe, de uma fábula leve, saborosa  e atual. O livro funciona mesmo para quem nunca leu qualquer coisa de Sandman e mesmo para quem detesta quadrinhos. A obra mostra a força de Gaiman como excelente contador de histórias, maestria narrativa que transcende o formato e ultrapassa os nichos de adoração tradicionais dos fãs de quadrinhos. O livro ganhou alguns prêmios, entre eles o Hugo Award por melhor obra relacionada e o Bram Stoker Award por melhor narrativa ilustrada.

A título de curiosidade, no aniversário de 20 anos da obra original de Sandman, essa obra foi adaptada para os quadrinhos por P. Craig Russel, é boa mas não tem nem de longe a força da original.

 Esse foi o livro que abriu as portas da literatura para o Gustota.

As leituras de sábado à noite: 2666 de Bolaño.

Antes de mais nada, não confundir com o já famigerado Roberto Bolaño(s), o intérprete do Chaves, do Chapolin e também escritor. Esse nosso Roberto é um pouco mais acadêmico e soturno que o Chavinho da vila,  e é chileno, diferente do seu homônimo mexicano.

Roberto Bolaño nasceu em 1950 na cidade de Santiago no Chile. Filho de um caminhoneiro (boxeador nas horas vagas) e de uma professora.  Ele mudou-se com a família para o México aos 18 anos e lá abandonou a escola para se tornar jornalista. Pouco tempo depois voltou para o Chile para lutar a favor do regime Salvador Allende, onde foi preso por suspeita de terrorismo. Após sair da prisão, viajou para El Salvador e México. Lá, juntamente com o poeta Roque Dalton funda o movimento infrarrealista, uma espécie de surrealismo punk que anarquizava rodas tradicionais de poesia. Os poetas do movimento invadiam essas rodas ler seus poemas niilistas e anárquicos.

Após anos de vida boêmia Bolaño vai para a Espanha,  seguindo toda a via-crúcis dos imigrantes ilegais e trabalhando em inúmeros empregos de meio-expediente, tais como garçom, selecionador de frutas, lixeiro e vigilante noturno. Na Espanha ele se casa e abandona temporariamente a poesia após seu filho nascer, por considerar a ficção mais rentável para o sustento de sua família.

Os romances de Bolaño alcançaram grande sucesso de público e crítica no decorrer dos anos noventa, mas foi após sua morte prematura em 2003, aos 53 anos, que sua reputação como escritor cult tornou-se mundial. Um dos principais sucessos  é considerado o seu romance-testamento, 2666.

2666: escritores, acadêmicos, boxe e muitas, muitas mulheres mortas.

Originalmente,  Bolaño teria determinado que 2666 seria um romance em cinco volumes, para vender mais e deixar um maior rendimento para sua família depois de sua morte. No entanto, os cinco livros dessa obra monumental foram condensados em um calhamaço com mais de 900 páginas. Lançado originalmente em 2004, 2666 é um romance estranho. O título não faz referência a nada na obra diretamente e reza a lenda que esse número foi achado em um bilhete de Bolaño depois de sua morte, com referências numerológicas similares em outras obras suas. Talvez seja um número correto de mortes no livro, talvez uma data,  talvez algo mais esotérico, não é possível desvincular o título da  obra, mesmo sem referência clara.

As cinco partes do livro se entrelaçam de alguma forma na cidade de Santa Teresa, no Novo México, onde estão ocorrendo assassinatos em série de mulheres. Na parte dos críticos, temos quatro acadêmicos de nacionalidades diferentes que estudam os textos de Benito Von Archimboldi, escritor alemão recluso que seria uma espécie de Thomas Pynchon. Enquanto buscam referências físicas ao autor, os quatro descobrem seu provável filho preso na cidade de Santa Teresa, suspeito de ser um serial killer, assassino de mulheres da classe trabalhadora na cidade.

A parte do Almafitano nos mostra um professor de literatura da Universidade de Santa Teresa, fã de Archimboldi que vive sozinho com a sua filha. Almafitano trava uma estranha amizade com o playboy filho do reitor. Ele admira a energia e falta de pudor do jovem que se interessa por literatura e tem linhas extremamente interessantes que traduzem os pensamentos de Bolaño, tais como:

Só a poesia não está contaminada. Só a poesia está fora do negócio. Não sei se me entende professor, só a poesia, e não toda que isso fique claro, é alimento saudável, e não merda.”

A segunda parte termina envolvendo a filha de Almafitano aos crimes com as mulheres na cidade. A terceira, a parte de Fate, começa com o próprio, um jornalista esportivo de uma revista norte-americana especializada para o público negro, cobrindo uma luta de boxe em Santa Teresa. Sua amizade com os jornalistas locais acabam por envolvê-lo também nas investigações dos crimes em série e mergulhando ele no submundo da cidade.

A quarta parte, a dos crimes, é a mais sufocante, pois intercala com a narração descrições de crime a crime com detalhes de boletim policial. Nessa parte, nós conhecemos o filho de Archimboldi, injustamente (ou justamente) acusado de ser o serial killer de mulheres, e mesmo enquanto está preso, os crimes continuam e a investigação é extremamente fútil e inconclusiva. São mostradas as questões culturais envolvendo a banalização das mulheres e da violência.  Os crimes citados nessa parte são referências diretas a crimes reais ocorridos em circunstâncias similares na Ciudad Juarez, Novo México.

A quinta parte, enfim, nos apresenta a Benno Von Archimboldi,cujo nome verdadeiro é Hans Reiter . Acompanhamos toda a sua vida, das aventuras durante a Segunda Guerra Mundial, até montar sua família, tornar-se um escritor de  sucesso e sumir do mapa depois da fama. As referências a Pynchon são claras tanto na reclusão do autor, como a obras dele como Arco-Iris da Gravidade. A banalização da violência está presente aqui, e podemos fazer uma relação entre os crimes de Guerra do nazismo e os assassinatos das mulheres de Santa Teresa. Também podemos notar referências sobre a vida de escritor em início de carreira tendo que enviar manuscritos e se esforçar para sustentar a família, tais como referências biográficas do  autor.

2666, apesar de imenso, é de leitura fluida e hipnótica. A forte referência à morte exalada pelo livro traduz um autor que sabe que irá morrer, e não teme mais confrontar com o vazio e horror que ela pode representar. Os estilos de narrativa e estilo literário mudam a cada parte do livro e o autor não deixa de citar o pulp sem medo de soar menos acadêmico. Talvez, Bolaño seja um dos últimos autores a dialogar com a alta e a literatura pop e de escrever calhamaços que valem a pena serem lidos .

Porque ler Bolaño num sábado à noite?

O Bolaño é foda de ler em qualquer dia, em qualquer hora. Parece que existe uma regra implícita de que para ser um livro com mais de 800 páginas tem que ser de fantasia. O livro é cult, vai da mais alta literatura ao mais baixo estilo de folhetim policial sem perder o ritmo, passando pela literatura fantástica de Garcia Marquez e o pós-moderno americano.

Isso sem levar em conta também que o livro foi escrito enquanto o autor estava morrendo, esperando um transplante de fígado. Esse seria O livro da vida dele, aquele que ele dedicou toda a sua energia criativa e sua paixão durante cinco anos de escrita louca e incessante.

Você precisará de muitos sábados para ler o 2666, mas acredite  valerá a pena.

Capas alternativas:


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para finalizar, algumas palavras (em espanhol, mas totalmente compreensíveis) de um amigo de Bolano e que dá ainda

mais motivos para ler ele:

Gustota só lerá autores que escrevem ao som de heavy metal daqui pra frente!